Cirurgia bariátrica e diabetes: o que caso de Romário traz de novidade sobre o assunto?

30 de agosto de 2017

Cirurgia bariátrica e diabetes: o que caso de Romário traz de novidade sobre o assunto?

cirurgia bariátrica e diabetes

Por Marlus Moreira, médico chefe do Serviço de Cirurgia Bariátrica e Metabólica do Instituto Mário de Abreu, em Curitiba

Cirurgia bariátrica e diabetes entraram na discussão dos últimos dias nas redes sociais após o ex-jogador e senador Romário ter postado fotos em suas redes sociais visivelmente mais magro. Romário admitiu ter passado pelo procedimento de interposição ileal – quando o íleo, parte final do intestino delgado, é sobreposto sobre a parte inicial, o duodeno – para tratamento de um diabetes.

O caso levantou dois pontos de discussão. Primeiro, a utilização da interposição ileal como procedimento médico de tratamento do diabetes pois a prática ainda não está regulamentada e estaria em fase de experiência. O segundo ponto é o uso da cirurgia bariátrica para pessoas com baixo IMC (índice de massa corporal, calculado dividindo-se o peso pela altura). Romário antes da cirurgia teria um IMC de 31.

Para orientar sobre boas práticas em cirurgias metabólicas e oferecer um maior conhecimento à sociedade sobre este delicado procedimento, o dr. Marlus Moreira, chefe do Serviço de Cirurgia Bariátrica e Metabólica do Instituto Mário de Abreu, em Curitiba, esclareceu os pontos em discussão:

Com qual índice de IMC uma pessoa pode pensar em cirurgia bariátrica?

No Brasil, a cirurgia bariátrica para controle de peso é recomendada com IMC a partir de 40, mas também consideram-se aptas pessoas com IMC acima de 35 associado ao diabetes. A literatura médica, desde 2011, recomenda que pacientes com diabetes severo (de difícil controle) sejam considerados à intervenção cirúrgica com IMC a partir de 30.

Qual a relação entre cirurgia bariátrica e diabetes?

Essa relação é antiga, porém, vem sendo utilizada a poucos anos. Mais precisamente a partir de 2007 com o primeiro Diabetes Surgery Summit, na Itália, onde especialistas de todo o mundo votaram e homologaram as recomendações para intervenção cirúrgica em diabéticos, as técnicas a serem usadas e as que deveriam entrar em investigação. Mais recente, em 2015, foi concluído o segundo Diabetes Surgery Summit, ampliou-se ainda mais as recomendações para cirurgia em diabéticos, especialmente nos com IMC a partir de 30.

Tecnicamente, a cirurgia bariátrica foi criada para reduzir e controlar o peso e assim evitar os malefícios que o excesso de massa pode causar ao organismo. Contudo, durante os anos de evolução das cirúrgicas anti-obesidade, foi observado que a melhora nos índices glicêmicos em diabéticos ocorre muito antes de haver perda de peso substancial. Isso despertou a ideia de que existe um efeito cirúrgico que vai além da mera perda de peso e, de fato, muitos pacientes abandonam uso de drogas antidiabéticas já no momento da alta hospitalar, inclusive do uso de insulina, que por ser injetável, traz grande desconforto nesses casos.

Isso ocorre porque a cirurgia tem o poder de induzir alterações no metabolismo dos diabéticos que melhoram a eficácia da insulina endógena (produzida pelo próprio organismo), tanto na produção quanto na redução da resistência insulínica que se desenvolve durante os anos de doença e pela qual é necessário elevar as dosagens medicamentosas progressivamente. Ou seja, a cirurgia bloqueia essa evolução corrigindo o metabolismo do açúcar, que volta a ser processado com mais facilidade, abolindo uso ou necessitando menor número de drogas.

Em nossa experiência, em estudo conduzido na população brasileira, demonstramos que a intervenção cirúrgica pode reduzir e estabilizar o diabetes, evitando as tão indesejadas variações glicêmicas (hipo e hiperglicemia) seja associado ou não a drogas antidiabéticas.

O que o senhor acha da técnica “interposição ileal”, procedimento pelo qual o senador Romário foi submetido?

A interposição ileal (IT) hoje gera uma grande expectativa por sua promessa de resolução do diabetes e mesmo com publicações sugerindo benefícios, essa técnica ainda não é regulamentada. Isso ocorre porque os resultados da IT isolada ainda são limitados e o mecanismo ainda não foi plenamente esclarecido, colocando-a como de uso exclusivo para investigação e experimentos. Atualmente não acredito que possa ser levada à população em grande escala antes de oferecer esse tipo de informação.

Tive a oportunidade de conduzir alguns experimentos com o íleo durante minha especialização em Nova York. Entretanto, os resultados foram inconclusivos e os estudos naquele momento acabaram interrompidos.

Qual procedimento você indicaria ao senador caso você fosse o cirurgião?

Especificamente nesse caso é difícil opinar pois não temos acesso à condição clínica dele. Mas a opção seria por um procedimento com o qual tenha experiência e segurança para oferecer ao paciente, no qual os resultados sejam conhecidos e possam ser avaliados antes de tomar a decisão final de optar por cirurgia. Hoje não é preciso recorrer a procedimentos experimentais, pois existem pelo menos quatro tipos de técnicas diferentes e aprovadas que nos dão resultados ótimos e previsíveis, risco cirúrgico baixo e com raras complicações. Essa terapia cirúrgica existe, funciona muito bem e pode ser usada para toda população com segurança.

Até onde vai o desejo do paciente em confronto com a ética médica na realização de cirurgia bariátricas?

Esse desejo vai até onde existam normas claras e definidas sobre as indicações. Então primeiramente devemos entender que cirurgia bariátrica se destina à perda de peso. Neste caso não vejo confronto ético, as normas já estão estabelecidas e basta segui-las, médicos e pacientes.

Agora, se formos abordar a cirurgia metabólica (ou leigamente “cirurgia da diabetes“), cujo foco é controle glicêmico e não somente perda de peso, pode existir conflito ao confundir as indicações e o momento de intervir. Nesse aspecto, o Brasil ainda não definiu as regulamentações e por isso existe margem a interpretações errôneas, inclusive sobre técnicas cirúrgicas.

A boa notícia é que já tramita proposta de um score metabólico desenvolvido e aprovado em conjunto pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), Soc. Bras. de Endocrinologia (SBEM), Soc. Bras. de Diabetes (SBD) e Associação Bras. de Estudos sobre Obesidade (ABESO), onde essas indicações são técnicas a partir de dados laboratoriais e clínicos. Acredito que tal normatização após aplicada irá resolver a polêmica e trará benefício a população geral, evitando qualquer conflito ético ou legal.